A AVE, O BÚZIO E O HOMEM

Se é mito ou não, Atlântida sabe bem. O imaginário e o fantástico sempre deram, aos homens, um sabor calcificante, uma filosofia capaz de dulcificar o prosaísmo do quotidiano. Quando um povo perde o seu imaginário e o seu mundo do fantástico desaparece, simplesmente. Os homens amam os seus mitos e, quando estes se desfazem, logo se aprestam a criar outros. Fazem-no com sofreguidão, com ansiedade, com luxúria. Eles sabem que, sem as suas verdades míticas, não conseguem sobreviver. Por isso se afirma que Atlântida, se é mito ou não, sabe bem. Porque: gostar das ondulações primitivas das marés, de algas, da música que os búzios - esses sofisticados transístores - emitem; gostar de comungar hóstias quentes de sal, de aceitar no corpo a água e ser duna de areia; gostar de beber horizontes de pernas longas pelas conchas de velhos crustáceos, de inventar o itinerário milenário das baleias e de outros cardumes menores; gostar de medir emoções com instrumentos criados pelos poetas e de viver com a poesia atravessada na garganta como bela e inoportuna espinha de peixe; gostar por gostar de ilhas e de nelas permanecer - não chega a ser gosto esotérico nem o mesmo que possuir um dos solstícios do girassol. Se são ou não farrapos da lendária Atlântida, são, com certeza, ilhas geradas pelo fogo na água, por amor. Que amor foi esse?, é pura especulação. Sabe-se que foi (é) amor violento, desse que, sem descurar a conveniência de um namoro platonizado por recato e pejo, vai da mordedura sensual nas costas à penetração mais profunda do abismo, descida aos infernos, um grito que nem os pássaros, no seu vôo migratório Norte/Sul, conseguem captar. Este amor não se pode ver. Apenas se pode pressentir / sentir quando acto consumado. E pode ver-se as mãos da água pousadas sobre a ilha, mas não se pode ver o fogo recolhido à serenidade do seu próprio espasmo. Esta versão talvez não seja sequer credível. Antes do fogo e da água, era o Caos. Só depois o Génesis, a mão de Deus sacudindo restos de barro, a mão imensa, o gesto largo de preguiça divina, ainda a mão cansada de seis dias de afanoso trabalho: o separar as águas da terra, o colocar nos climas certos as plantas, os animais, o esculpir o homem como auto-retrato (imagem e semelhança). Tamanha foi a tarefa que, ao sétimo dia, descansou. E ninguém sabe que aparelho da eternidade mediu tais dias. Sabe-se que Deus respingou o fogo suficiente para explodir na água e, dizem velhos escritos, que esse gesto foi de inocente divertimento. Quando emergiram as nove pontas de terra (a bizarria das suas formas também a Deus pertence), houve que Ihes vestir a pele de verde. Cedro, fetos, faias, urze, giesta e muito musgo deram, às ilhas, cor. Os silvados de Setembro continuam a encher o ar com o aroma das amoras. Só mais tarde é que se plantaram hortênsias. Estas são os olhos do mar que, uma vez por ano, se recreiam, em borbotões, por vales e caminhos. (Não há lágrimas mais lindas!) Outras plantas — algumas são árvores, outras não — não fizeram parte do projecto da criação. Arredias ficaram as boninas. O Génesis não foi um acto tão completo como superficialmente se quererá depreender. Trouxeram para as ilhas muitas árvores e cereais. Todas as plantas se deram bem. Duvida-se da proveniência da junça, de cuja baga se alimentaram os ilhéus em tempos de mor carestia. (Isto também vem nos velhos livros). Seja como for, parece poder concluir-se que, na criação de ilhas, os homens sempre ajudaram Deus. Talvez venha desta colaboração não solicitada um certo punhado de ciúme que, nesta área, existe entre Deus e os homens. No ventre de cada ilha, tal como a mulher faz ao seu folar de Páscoa, foi depocitada uma bola de fogo que, em ciclos ainda não graficados e, muito menos, computadorizados faz tremer ou explodir a terra como um soberbo repuxo de baleia. Quando isso acontece, é um causo de espantação, um estupor luciferino. E um vomitar de fogo e poalha, cinza, uma baba escura, quente, que coalha sobre a barriga: lava, assim se diz. É como se a ilha tivesse engolido o mais indigesto bocado do inferno, com seus demónios condenados e tudo vomitasse com roncos de cólica e outros espasmos. E, disto, os homens têm medo - claro... Quando os homens chegaram (assim se julga saber), as Ilhas eram seres imperfeitos, vestidos de verde, minúsculos desertos verdes, mais o Pico negro, feito esperança desesperada de chegar ao céu. Animais! Aves. Milhafres ou queimados, sabe-se. Mas ninguém ousará afirmar a existência de canários, lambadeiras ou chinchericas, rentilhóes, melros pretos, gaivotas ou garças, pombos mansos, pombos bravos, o raro prioulo, codornizes. E outra dúvida: milhafres são açores! Certeza: Todas estas aves vivem nas ilhas, sem semear nem colher, voando, cantando, pousando nas árvores e restolhos, fazendo ninho, cumprindo a vida, felizes, que, da insularidade, nem Ihe sabem o nome. Clarifique-se: os pardais são povoadores recentes - espécie de última praga poética tornada irreversível. Mas foi uma ave - o açor - que deu com a língua nos dentes, denunciando aos marinheiros das caravelas do Inphante, sem previsão de malícia, a existência das ilhas. Santa Maria, S. Miguel, Terceira (ilha de Jesus Cristo), S. Jorge, Graciosa, Pico, Faial, Flores, Corvo - foram nomes dados em pia e registo de baptismo cartográfico. Todas são Açores - preço da denúncia ou grata homenagem pelos bons serviços prestados pela dita ave. Milhafre ou açor? De nada servirá jurar sobre os resultados das mais circunspectas e atinadas averiguações. As ilhas ficaram Açores e aos homens deram nome: açorianos. Homens nas ilhas! Primeiro, houve que deixar levantar o nevoeiro; depois, ver, sentir cada ilha, testar a sua fertilidade, os coelhos-cobaia em explosão demográfica, as vacas, os cavalos, as ovelhas; depois..., foi precisa uma boa dose de aventura, misturada com o desejo de possuir um pouco mais de pão, riqueza, glória. Tudo fácil (?). Após a euforia dos descobrimentos, a Europa entrou em polvorosa com os novos-mundos, por causa das suas riquezas fantásticas e fantasmáticas. E todos os oceanos foram devassados por caravelas e naus, carregando especiarias, madeiras, resinas aromáticas, louças, sedas, pedrarias. Faça-se silêncio sobre a legalidade de muito deste comércio que, apesar de contrariado por corsários, colheu homens a quem fez escravos. Interessa, sim, falar das ilhas não só como cenário de cobiças e patriotismos moídos a sangue e fel, mas também como porto de escala de frotas e armadas e do quanto se negociava e contrabandeava em panos, carnes, frutos, vinho, cereais, linho. Sobretudo na cidade de Angra (ilha Terceira) não se conheceu maior explendor. Opulência / miséria. Entende-se. Apogeu / decadência. Entende-se. Com a derrocada do comércio marítimo, desaparece o interesse internacional das ilhas. Encurtecidas as distâncias, as ilhas (paradoxo dos paradoxos!) ficaram mais longe do resto do mundo. E também mais pequenas. É desta pouca terra que os homens extraem o que precisam para comer sem grandes sobras, a par e passo com algumas delícias: o maracujá, a uva do verdelho, o café raro de uma única ilha; do engenho criativo, o queijo e a manteiga; da inspirada culinária, uma alcatra invulgar, a massa sovada; e da doçaria conventual, o alfenim e demais doces de leite e deleite. Do mar enorme, extraem o peixe, os peixes, as mil e uma espécies de peixe. E dentro deste mar caçam esse belo monstro que, na Bíblia, emprestou a Jonas o mais surrealista meio de transporte que até hoje se usou; que Luciano Samósata reconfirmou como sendo um mundo inaudito de cavernas habitáveis; que Acab, através de Herman Melville, logrou encontrar a sereia da sua morte - Moby Dick, fêmea branca de múltiplas seduções. Baleia. Baleia dos óleos e farinhas, do âmbar e marfim e também do desafio da coragem contra a fome, da sagacidade contra a morte. No balear e outras pescas, no semear e pastorear, é gente vergada ao chão numa espécie de fixidez que não o é - que este povo é, de todos os portugueses, o mais emigrante, o menos torna-viagem, o mais acomodado saudoso que vai por esses continentes e ilhas fora. E que os ventos traziam notícias de terras sabidas grandes e de sortes menos amargas que as do Inverno na barriga. Em barcos de baleeiros e outros se embarcaram aventuras, fomes, desesperos, sonhos, punhos de raiva, os amores impossíveis, todas as desilusões da ilha. E demandaram ao Brasil para ficar, o oiro em seu aceno brilhante, a atracção pelo abismo, sem mais poesia. Foi o começo do êxodo. Seguiram-se as outras américas, raras áfricas e índias - sorvedouro e vórtice. Ninguém conhece os Açorianos sem percorrer as Cinco Partidas. Os Açores estão em todos os oceanos. O Atlântico sabe que perdeu. Universalidade congénita! Desertificação das ilhas? Como não ofender os megalómanos e os miserabilistas? Ainda ha gente a cumprir, nas ilhas, os mesmos ciclos, ritos ancestrais e posturas de ser e viver. Ciclos da vida, do quotidiano vivido no decorrer das quatro estações, sob signos e símbolos que se perfilam perante a subtil fronteira que separa o sacro do profano. Com os mesmos fios da fé urdem o terror do sublime (essa espécie de halo transcendente que o vulcão, o abalo, transmitem à ilha, fazendo-a tremer de comovido pavor) com a alegria inestancável que se derrama das folias ou "brincas", arraiais, touradas, ranchos de reis e janeiras, "danças" de entrudo. Porém, terror e alegria como que nascem do voto, da promessa. Promessa. Voto. Céu e inferno. Medo de morrer sem viver o tempo tido por necessário. Assim, o Espírito Santo - com o seu complexo e longo ritual - preenche quase meio ano das almas, com seu zenite na época das colheitas. E a fé da mesa farta contra a fome: a "função" de sopa, carne cozida, alcatra, arroz-doce, massa sovada, alfenim, tudo regado a vinho-de-cheiro - o bodo. E deixar que o foguete estale e logo a filarmónica se desfaz num "ordinário" festivo que se espalha pela comunidade em chuva de música; que logo o cortejo se esvai do "império" ou "triato", com bandeiras, varas e tochas e as coroas imperiais de boa prata que pousam solenemente sobre a cabeça de inocentes vestidos de branco, como a alva pomba da símbologia da Trindade; que logo a igreja paroquial faz sair seus santos, postados em seus andares enfeitados com sécias, cavacas, espargos, boninas, dálias, aos ombros de fieis mocetões; que logo o toiro se liberta do touril e vai a correr estrada fora, perseguindo os toureiros do improviso, salvando-os a corda que prende o toiro pelo pescoço e que os pastores dominam na hora do perigo. A margem (ao centro!), o namoro, o amor, as piscadelas d'olho, o beijo roubado, o coração apalavrado, com pipocas, fava, amendoim e milho torrados, o tremoço curtido no mar, tudo sob pregões de fazer crescer água na boca. ~E, no arraial, a tasca com a sua ementa temperada a malagueta: a batata cozida com a casca, O caranguejo, as lapas, as cracas, o cavaco, a lagosta, as favas molho d'unha, o vinho - o tal do cheiro. E que mais! O silêncio. As ilhas são as últimas catedrais do silêncio. Nelas se interpreta a bruma com a mesma paciência com que o paleógrafo decifra um documento antigo. A luz é uma forma de texto. Cada tonalidade tem uma maneira específica de ser lida. Ler as ilhas é consentir num jogo de emoção / sensação onde ninguém sai defraudado. Basca colher a luz que se derrama sobre o socalco, a onda, o recorte da costa, a pedra, o ombro da porta, da janela. Panos de bruma coam a luz. O azul do céu e os fundos do mar dão marinhas de verdes violáceos e algas. As nuvens e o sol vestem os campos com todos os verdes do mundo. Juntese-lhes o negro/cinza do basalto, o vermelhão da pedra/tufo, os ocres da bagacina. Alguém domina esta paleta e esse alguém é, de certeza, um grande Artista. O domínio da cor é perfeito. As ilhas são ainda o sacrário da solidão: as pessoas que deslizarn pela terra, pela água, como bailarinas do sonho, carregando o mesmo peso do sossego; a devoção com o mesmo fulgor do foguete que estala no ar só para meter inveja ao ritmo monótono do coração. O povo cumpre o seu ciclo histórico, social e cultural - com a serenidade dos horizontes, indo do berço à sepultura, a mesma sensação de quem Passa / vive sob a alternância do dia e da noite, do sol e da bruma. A terra e o mar são o binómio deste povo, o desequilíbrio natural entre o muito e o nada - quase. A solidão derramada no cais, cais de partidas, das longas esperas. A lenta melodia da saudade chorada por seu bem.O bailho fecha-se "furado" da charamba à sapateia e, pelo meio, ficam todos os pezinhos, samacaios e chamarritas que é possível bailar - a lentidão triste dos passos. Restam os olhos pretos cansados de chorar por lira amortalhada, antes, ferida de morte. Morte? Sim. A morte humana das ilhas. Na solidão se evoca o amor perdido. Numa pedrinha do cais, o nome do amadolamante escrito para sempre. Sem folclore. E quem tem olhos para olhar?  Olhar não é só o gesto de pousar os olhos sobre. É sustentar a memória com o encanto, o descanto - tudo o que fere e se ferra como tatuagem. Olhar as ilhas (as dos Açores) é provocar os olhos com todo a imaginário que delas escorre e dos angulos (de visão) já instituídos. Há sempre uma esquina nunca dantes dobrada que dá para "paisagem" desconhecida e sempre alucinante. As vezes, basta uma subtil coloração da luz para que se seja surpreendido pelo deslumbramento, até à explosão dos sentidos. Cada ilha é, por si mesma, um caleidoscópio provocador de imagens inumeráveis, onde a beleza nem sempre atenua a dureza do quotidiano. Os sonhos Sá bons ou maus. Olhar de dentro as ilhas é diferente de as olhar de fora. A casca da maçã não é propriamente a maçã. A casca é que possui a sedução, mas é por detrás que a substância mora. Olhar por dentro as ilhas é diferente de as olhar de fora epidérmica. A posse só acontece quando existe a generosidade da penetraçáo. Nada é mais importante, para o descobridor, do que ter a certeza de ter chegado ao âmago da viagem. Neste álbum (P]agina na Internet), o olhar não é só uma atitude provocada pelo acaso. O viajante assume, aqui, a curiosidade do descobridor e a sua viajem é feita por intuições, predispostas atenções e com a persistência requerida pela pesquisa, de forma a atingir o real e o poético, pelo desfibramento constante de cada ângulo, de cada imagem, por dentro. Aqui, nada é gratuito. O saber deste olhar é feito de fruições, através de uma sensibilidade desperta e generosa que se deixa deslizar, serenamente, por dentro de cada ilha para que, de cada uma, capte e fixe o q.b.: o mítico e o prosaico, o inefável e o violento, o poético e o supérfluo, o pitoresco e o folclórico, o fantástico e o comezinho. Por tudo isto, estes Açores são mais verdadeiros de que outros la dados à estampa. Estão aqui, a exigir uma leitura atenta, as duas faces da medalha: insularíssima solidão versus singular beleza.

Álamo Oliveira, Angra do Heroísmo. Março de 1987.