A Terceira é um fecho de um arco harmonioso que são as nove estrelas dos Açores. Sem elas, seria uma pedra solta. Com elas, é um elemento básico de reflexão histórica, de filosofia de vida, de criatividade política, de caução para, em todas elas, uma vida melhor.
Álvaro Monjardino


Fotografias


A Ilha Terceira, chamada inicialmente de Jesus Cristo, foi a terceira ilha do Arquipélago a ser descoberta e daí o seu nome actual. Tem uma superfície de 396 Km². O seu povoamento começou cerca do ano de 1450, com os flamengos — Jácome de Bruges e numerosas familias que o acompanharam, vindas da Flandres — e portugueses do Continente e da Ilha de São Miguel.

Desde o início que a Ilha Terceira desempenhou um papel de grande relevo no período das Descobertas, mercê da sua localização geográfica e dos seus portos e enseadas. No regresso da descoberta do caminho marítimo para a India, em 1499, Vasco da Gama aí fez alta, tendo dado sepultura a seu irmão, Paulo da Gama.

A vila de Angra, hoje Angra do Heroismo e actual capital da Terceira, foi a primeira povoação dos Açores a ser elevada a cidade, recebendo o seu foral em 1534. Nesse mesmo ano, seria escolhida para sede do bispado açoriano pelo Papa Paulo III.

Apesar de ter sofrido ao longo dos tempos os efeitos de alguns abalos de terra, guarda ainda um conjunto monumental de grande interesse, constituído pela Fortaleza de São João Baptista (séc. XVI), igrejas e palácios dos séculos XVI a XVIII. Pelo seu real valor histórico e arquitectónico, a cidade de Angra foi declarada pela Unesco, em 13/4/1984, património mundial. Foi a última terra portuguesa a ceder ao domínio filipino quando Portugal perdeu a independência em 1580, tendo apoiado a causa de D. António Prior do Crato.

Angra do Heroísmo, cujo título de «Heroismo» lhe foi concedido pela Rainha Dona Maria II no século XIX, pela bravura demonstrada durante as lutas liberais, e uma cidade bem delineada, estendendo-se frente ao mar e ao Monte Brasil que Ihe fica sobranceiro. Do Monte Brasil pode admirar-se não só a cidade mas ainda a beleza deslumbrante de toda a orIa marítima que a ladeia.

Além da cidade de Angra do Heroísmo, destacam-se, pela sua importância, a cidade Praia da Vitória e a vila das Lajes. Nesta última foi construído o maior aeroporto do Arquipélago, servindo simultaneamente o tráfego civil e militar. Nele está instalado o Comando Aéreo dos Açores, e, no âmbito da NATO, uma base da Força Aérea Norte-Americana.

A paisagem terceirense é de grande beleza e em certas regiões toma aspectos bastante característicos. É desalientar o panorama que se pode observar da Serra do Cume, não longe das Lajes e da Praia da Vitória. Até onde a vista alcança, apresentam-se as terras divididas geometricamente por uma infinidade de sebes, formando pequenos rectângulos, nos quais pastam numerosas vacas leiteiras, suporte da importante indústria dos lacticínios .

A Oeste, a ilha está coberta por vegetaçáo exuberante, onde abundam as criptomérias. Mais junto à costa, a Mata da Serrata é local aprazível onde foi construída uma agradável pousada, de largas vistas sobre o mar e onde, em dias claros, se avistam as ilhas de São Jorge e Graciosa.

Na costa Norte, perto dos Biscoitos, pode ver-se a ponta dos «mistérios», com os seus vestígios de erupções vulcânicas milenárias, mantos de lava negra de curiosas configurações.

Não se pode falar da Ilha Terceira sem mencionar as festas do Divino Espírito Santo, pois, elas são de transcendente importância para o homem açoriano em geral e para o terceirense em particular, por estarem profundamente arreigadas à terra e às suas gentes.

O culto do Senhor Espírito Santo, como se diz na ilha, está ligado à Rainha Santa Isabel, mulher d'El Rei D. Dinis de Portugal, e ao milagre das rosas que se transformaram em pão (séc. XIII). Os primeiros povoadores levaram com eles todo um sentir religioso que se manteve intacto até aos nossos dias.

O « o milagre das rosas» repete-se em todas as vilas e aldeias da Terceira, desde o domingo do Espírito Santo até ao fim do Verão, na cerimónia da distribuição do pão e da carne, não só aos mais necessitados mas a todos os irmãos do «Império» e, quantas vezes, a todos os que assistam à festa, venham donde vierem! É um ritual da Idade Média que se repete ao longo dos séculos com um sentimento profundamente religioso.

O Homem e a Natureza, de mãos dadas, ficam assim perante um Deus — o Divino Espírito Santo — que os protege e ajuda na vida quotidiana.

Em linhas gerais, e dependendo dos usos de cada freguesia, as festas começam no primeiro domingo depois da Páscoa pela cerimónia da bênção das «coroas» na igreja paroquial.

Depois procede-se à nomeação dos Administradores do «Império» para o novo ano, feita pelos actuais Administradores. Em seguida procede-se à distribuição das «mordomias» pelas famílias interessadas e a quem caberá guardar, durante uma semana, em suas casas, a coroa e o ceptro que simbolitam o Espírito Santo.

No dia da festa, comem-se as tradicionais e saborosas «Sopas do Espirito Santo», a «Alcatra», as «RosquiIhas», a «Massa Sovada» e os doces de «Alfenim», num sem fim de rituais que variam de povoação para povoação mas sempre em ambiente de tempos idos.

Conquanto estas festas tenham lugar em quase todas as freguesias, destacam-se pela sua importância as de São Sebastiáo, Porto Judeu, Lajes, Vila Nova e Agualva.

Uma outra festa de grandes tradições, de carácter profano, ainda que de certa maneira ligada a rituais, quiçá milenários, é a «corrida à corda». Um toiro seguro por uma longa corda e «controlado» por dois grupos de quatro «pastores» investe contra os populares que se espalham pelo terreiro da vila ou pelas ruas apertadas das pequenas povoações. A «corrida à corda» é também pretexto para o reencontro de parentes e amigos que vêm de longe, na sua maioria emigrantes, dos Estados Unidos e Canadá. Quantas vezes, com o entusiasmo da conversa, nem tão pouco assistem à «corrida». No entanto, mais tarde, aos amigos, dela falarão com entusiasmo.O objectivo principal foi alcançado: matar saudades da sua terra natal!

São ainda de referir, no mês de Junho, as festas «Sanjoaninas» na cidade de Angra, onde são vividas com grande alegria e rigor velhas tradições e folclore regional .

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