Abstracção e sonho. Porque neste amanhecer perpétuo a gente sonha mais do que vê. Divaga. Pouco a pouco a paisagem fica azulada — dum azul desmaido, dum azul com água. Divaga toda azul num mundo de sombras brancas, de hálitos tépidos, de penas que esvoaçam. É alguma coisa de perfeito, de incriado e sereno...
Raul Brandão


Fotografias


A Ilha de São Miguel é a maior de todo o Arquipélago e, economicamente, a mais importante. Tem uma superfície de 747 Km². A variedade da sua paisagem, durante as quatro estações do ano, é, naturalmente, uma das razões do grande interesse que esta desperta constantemente. No entanto, e em Abril, na época das azáleas, que algumas regiões da ilha se tornam num espectáculo único a que ninguém pode ficar insensivel.

O Vale das Furnas torna-se visão quase irreal quando o vapor das caldeiras, com a água a ferver em cachão, se mistura e envolve os grandes maciços de azáleas circundantes. Aqui e além, quer junto às estradas quer nos campos e jardins, correm as águas tépidas e calmas de regatos resultantes das nascentes que brotam em abundância.

No Verão são as hortênsias que cobrem montes e vales, ao longo das estradas e dividindo a propriedade rural . É difícil descrever e mesmo imaginar os cambiantes de verde que se podem admirar na paisagem micaelense. Pastagens infindas, nas encostas e nos vales, justificam largamente o cognome dado a São Miguel — Ilha Verde.

A Caldeira das Sete Cidades é outro motivo de grande interesse. A sua cratera imensa abriga as águas calmas de duas enormes lagoas: a mais afastada de tom azul, a mais proxima de tom esverdeado. Cenário maravilhoso e fantástico, com céu Iímpido e contornos bem definidos, desaparecendo num turbilhão de nuvens brancas que na sua corrida vertiginosa deixam ver por instantes — e como que por magia — a caldeira em toda a grandeza!

A Lagoa do Fogo, na Serra de Agua de Pau, é igualmente digna de ser admirada. A paisagem do Nordeste, talvet porque mais afastada dos grandes centros urbanos, guarda ainda hoje a serenidade dos tempos idos.

A Ilha de São Miguel teve a sua primeira capital em Vila Franca do Campo, até 1522, ano em que foi transferida para Ponta Delgada. A vila da Ribeira Grande, na costa Norce da ilha, é considerada como que uma vila-museu, igrejas e casas solarengas.

Ponta Delgada, capital desde 1522, e uma cidade em constante desenvolvimento, com as suas igrejas e palácios do século XVI ao XIX.

Um porto de mar com óptimas condições proporcionou, desde sempre, grande desenvolvimento económico e urbanístico.

Não se pode, no entanto, falar de Ponta Delgada sem referir a festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que se realiza anualmente no quinto domingo depois da Páscoa. É uma exaltação de fé de todo o povo.

Uma procissão com a Imagem do Senhor Santo Cristo em andor florido percorre, desde o ano de 1613, as ruas da cidade sobre tapetes infindos de azáleas e criptomérias. Ao anoitecer, o Convento da Esperança, onde se guarda a Imagem, torna-se uma visão feérica inesquecível pois é ornamentado com milhares de pequenas lâmpadas de várias cores e desenhos artísticos. São dias de intensa emoção e fervor religioso. Uma outra manifestação religiosa — os Romeiros — merece referência especial na Ilha de São Miguel. Pela Semana Santa, grupos de algumas dezenas de homens, dos mais novos aos mais velhos — os Irmáos —, percorrem a pé, durante oito dias, toda a ilha, sempre no sentido do movimento do sol, rezando e encomendando as almas. Páram, rezam e cantam em todas as igrejas erguidas a Nossa Senhora ou onde haja altares a Ela dedicados. Antes do nascer do sol, partem com a capa, o lenço, o bordão e um pequeno saco para refeições frugais, com o terço entre os dedos, por montes e vales, estradas e «canadas», rezando sempre. É uma tradição religiosa do século XVI que ainda hoje tem uma vivência impressionante.

Na Vila das Furnas realiza-se anualmente a Procissão dos Enfermos, sempre no primeiro domingo depois da Páscoa. Além de ser uma manifestação de fé, tornase uma visão espectacular de cor, pois, todas as ruas da vila, num percurso de mais de cinco quilómetros, são cobertas por um tapete ininterrupto de azáleas de diversas cores e tons, em padrões artísticos que os moradores executam com devoção e entusiasmo, segundo a sua inspiração.

Têm ainda grande interesse as festas dos santos padroeiros em todas as localidades das ilhas açorianas. Nesses dias, as vilas e aldeias vivem belos momentos de fervor religioso, ainda que rodeados de festas populares que reflectem, se bem que longinquamente, a influência das regiões donde procederam os primeiros povoadores.

               
São Miguel São Miguel São Miguel São Miguel São Miguel São Miguel São Miguel