Este São Jorge é uma ilha e tanto! Com a sua lomba infindável, os seus pastos altos e eternos, as suas fajãs escondidas, os seus incenseiros cheirosos.
Vitorino Nemésio


Fotografias


A Ilha de São Jorge faz parte do grupo central do Arquipélago dos Açores e fica situada a poucos quilómetros das ilhas do Pico, Faial, Terceira e Graciosa. Tem uma superfície de 237,6 Km².

A primeira referência histórica a São Jorge data de 1439. No entanto, o seu povoamento apenas começou duas décadas mais tarde, com colonos vindos das províncias do Norte do Continente. Em 1469 chegou à Ilha de São Jorge o flamengo Wuyllen van der Aegen (GuiIherme da Silveira). Desembarcou no local a que chamou «Topo», onde fundou uma povoação, e mais tarde veio a falecer com fama de grandes virtudes.

Guilherme da Silveira foi o introdutor do cultivo do pastel, planta da qual se obtinha uma anilina de grande valor económico. Era exportada para a Flandres e demais países da Europa.

O descnvolvimento de São Jorge fez-se rapidamente, pois a povoação das Velas, sua capital actual, ainda recebeu foral de vila antes dos finais do século xv e as povoações do Topo e da Calheta tornaram-se sedes de concelho em 1510 e 1534, respectivamente.

A economia da ilha baseava-se essencialmente no cultivo da vinha. do trigo e do pastel. Em São Jorge, como em outras ilhas dos Açores existia um liquen, urzela, que produzia, como o pastel, uma anilina muito apreciada.

De natureza vulcânica, como as demais ilhas do Arquipélago, São Jorge sofreu os efeitos de alguns abalos sísmicos, dos quais se destacam os de 28 de Abril de 1580, que foram acompanhados de duas ou três erupçóes vulcânicas que duraram alguns meses e que causàram grandes prejuítos e altcrações no desenvolvimento da ilha. A Torre da Urzelina é o que resta da antiga igreja, que ficou completamente soterrada pela corrente de lava que desceu da montanha até ao mar, numa erupção vulcânica no ano de 1808.

Nos séculos XVII c XVIII a ilha sofreu o ataque de alguns piratas que então cruzavam os mares em buscade fortuna. Mas os seus habitantes foram de uma tenacidade sem igual. Sem desânimos, continuaram a luta por um «amanhã» um pouco melhor, que sempre havia de chegar!

Os campos férteis, transformados em pastagens sem fim, permitiram um grande desenvolvimento da pecuaria e da indústria de lacticínios e assim o queijo de São Jorge é hoje um símbolo de prosperidade da ilba. O mar é também fonte de riqueza, pela quantidade e qualidade.

A Ilha de São Jorge tem uma configuração acentuadamente estreita e alongada. São cerca de 8 Km de largura por 56 Km de comprimento. É percorrida longitudinalmente por uma cordilheira cuja altura média se situa nos 700 m e a máxima éde 1053 m no Pico da Esperança. As encostas escarpadas, cobertas por rica vegetação formada por faias, incenceiros, timbros, urzes arbóreas, criptomérias e outros, caem abruptamente até ao mar.

Ao longo dos tempos, grandes desmoronamentos de terra formaram junto à costa plataformas de dimensões variáveis e quase sempre a poucos metros acima do nível das águas do mar. São as impressionantes Fajãs, quase todas habitadas mas de acesso muito difícil, umas vezes por estradas cortadas nas vertentes, outras por estreitas veredas abertas entre fragas e densa vegetação.

Na costa Norte, entre outras, destacam-se as Fajãs do Ouvidor, dos Cubres e do Senhor Santo Cristo (onde, numa pequena lagoa, se encontram deliciosas amêijoas). Na costa Sul, a mais impottante é a Fajã dos Vimes, onde se continuam a fazer, em velhos teares, as famosas colchas de São Jorge.

Nos meses do Verão a paisagem é enriquecida pela floração de sebes e maciços de hortênsias em quantidades impressionantes. Mistura-se ou destaca-se, conforme a posição do Sol, o azul intenso das hortênsias com o verde matizado das pastagens, num devir constante de beleza deslumbrante.

Realçar a afabilidade das gentes de São Jorge é repetir o que se tem dito de toda a população açoriana.

Longe dos grandes centros, arreigados à terra que os viu crescer e que muitos deles jamais deixaram, vivendo em comunhão com a Natureza, conservaram intactas as qualidades humanas que as sociedades modernas vem destruindo.

Os «Impérios» lembram-nos a cada momento a importância que as festas do Divino Espírito Santo representam para o povo açoriano. As cerimónias não perderam o seu sentido religioso guardado da Idade Média até aos nossos dias, através desse povo simples, o mesmo que há seculos vem implorando a Sua protecção nos momentos trágicos da sua existência, isolados num pedaço de terra no meio de um oceano imenso, quantas vezes adverso.