O Pico é a mais bela, e extraordinária ilha dos Açores, duma beleza que só a ela lhe pertence, duma cor admirável e com um estranho poder de atracção. É mais que uma ilha — é uma estátua erguida até ao céu e moldada pelo fogo — é outro Adamastor como o do Cabo Tormentas.
Raul Brandão


Fotografias


A Ilha do Pico é a maior do Grupo Central e a segunda de todo o Arquipélago. Tem uma superfície de 433 Km². O seu nome advém da alta montanha que a dominae que termina num pico pronunciado, a 2 35l m de altitude, sendo, portanto, o mais alto de Portugal.

Deve ter sido descoberta nos meados do século xv e na mesma altura em que os primeiros navegadores chegaram ao Faial, pois, entre elas, apenas existe uma Iíngua de oceano de cerca de 7,5 Km de largura. O seu povoamento começou cerca do ano de 1460 pela vila das Lajes, na costa Sul. É uma ilha de paisagem bem característica, constituindo hoje uma reserva natural de grande importância, com vegetação variada e rica em cedros, vinháticos, loureiros, teixos, dragoeiros, urtes, criptomérias, pinheiros, etc.

O solo apresenta características bem distintas sendo a ilha coberta, em grande parte, por mantos de lava denominados «mistérios», resultado de erupções vulcânicas junto à costa, algumas delas posteriores à descoberta da ilha. São de referir os «mistérios», de Santa Luzia, da Praínha, de São João e da Silveira. A costa, muito recortada, apresenta alguns aspectos curiosos, deles se salientando o conjunto rochoso do Arco do Cachorro na baía do mesmo nome.

A cultura da vinha predomina na região ocidental. O famoso «Verdelho do Pico» é cultivado entre muros de forma geométrica feitos de pedra solta nas terras do litoral. As cepas crescem por vetes como que por milagre nas fendas das rochas ao longo dos campos.

O habitante do Pico não é homem que se deixe vencer pela Natureza. Era o mais forte e destemido «trancador» de baleias quando estas ainda se caçavam nos mares açorianos. Não em barcos industriais de grande tonelagem mas em frágeis baleeiras, numa luta corpo a corpo entre o homem e o gigante.

Uma viagem pela ilha, e quase sempre junto ao mar, leva-nos da vila da Madalena à vila de São Roque do Pico, na direcção Norte, sempre com a ilha de São Jorge à vista. Na direcção Sul, leva-nos à vila das Lajes. Entre aquelas vilas existem pequenas povoações de grande interesse e a paisagem do Pico encontrase salpicada de casas brancas ao gosto e estilo do continente. Um ou dois moinhos de vento tentam resistir à evolução industrial do século XX. Atravessando a ilha, junto às faldas do Pico, podem verse as lagoas do Caiado, do Paúl e do Capitão, todas elas cheias de encanto e bucolismo.

A ascenção ao cume do Pico, embora muito difícil e cansativa, é de grande beleza, pois daí se pode admirar o mais vasto panorama do Arquipélago Açoriano, vendo-se em dias claros todas as ilhas do Grupo Central.

A forma como a montanha do Pico se apresenta, mais ou menos nublada, dá aos seus pescadores e moradores, e aos das ilhas vizinhas, a possibilidade de prever com certo rigor o tempo que vai fazer. Já Gaspar Frutuoso, em «Saudades da Terra» nos finais do século XVI, nos dizia: «O Pico tem outro pico no meio tão grande como qualquer dos outros picos grandes que há na Terra, e em outras terras, e tem tão grande altura o cume dele e tão vizinho aos ventos, que por ele os adivinha muito fácilmente os mareantes e moradores daquelas ilhas ao redor, porque, quando está todo coberto de névoa, é certo sinal de virem tempos mareiros, como é Sul, Leste, Sudoeste, e, quando está todo descoberto, advinha vento Oeste, ou Oes-noroeste, até Norte, e quando tem uma barra branca de névoa pelo meio e o mais, assi pera riba como pera baixo, está descoberto advinha tempos lestes e nordestes, e quando se vê todo limpo e logo depois se cobre no cimo de todo de névoa e faz um capelo dela, cursando então qualquer vento, advinha que se há-de mudar o tempo mareiro, como é Sul, Sueste e Sudoeste».

Nos meses frios de Inverno o Pico reveste-se, geralmente, na sua parte superior, de espessa camada de neve, tornando-se espectaculo de grande beleza. Como em todas as restantes ilhas açorianas, são as festas religiosas que mais traduzem o sentir dos seus habitantes. A festa do Bom Jesus, que ocorre na freguesia de São Mateus, é a mais importante. As festas do Senhor Espírito Santo revestem-se igualmente de grande importância, sendo muito famosas as «Sopas do Espírito Santo». Com o ritual de sempre, repetem-se as «Coroações», os «Impérios», a distribuição das «rosquilhas» e da «Imassa sovada» depois das solenes procissões como as da vila da Madalena, Criação Velha e outras.

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