Quero que o meu corpo seja sepultado no cemitério da ilha do Corvo, a mais pequena dos Açores, (...) são gentes agradecidas e boas, e gosto da ideia de estar cercado, quando morto, de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecida.
Do testamento de Mouzinho da Silveira, Séc. XIX


Fotografias


A Ilha do Corvo é a mais pequena e a mais afastada de todas as ilhas açorianas. É um recanto dum mundo diferente, uma ilha em que o tempo não conta. A chegada e a partida da lancha do Tio Augusto que a liga com regularidade à Ilha das Flores, a cerca de duas horas de viagem, é o facto mais notado e mais vivido durante todo o ano. A visita festival dos emigrantes que trabalham nos Estados Unidos e no Canadá, que ao Corvo vêm matar saudades, é outro facto que marca, no tempo, a vida calma da ilha. Corvo tem como única povoação a Vila Nova do Corvo. Estende-se encosta acima a partir do mar. Casas brancas, muito brancas, e ruas estreitas, tão estreitas que uma pessoa de braços abertos toca as paredes de cada lado. Era assim mais fácil defenderem-se dos corsários em tempos idos. Um pequeno cais permite que a lancha da carreira acoste, não sem dificuldades. Só a destreza do Tio Augusto e de seus filhos que a dirigem e a ajuda dos corvinos que descem ao cais para ver quem chega e quem parte permite que se torne fácil o que na prática seria bem difícil.

Com a partida da lancha fica de novo a ilha isolada até ao seu regresso no dia seguinte, se o mar o permitir. A população mais jovem vai emigrando para a América e por isso a Vila não cresce. Mais tarde, guando reformados, voltam alguns para ficar de vez. E a voz do sangue e as saudades da terra.

A comunidade corvina, há séculos afastada dos grandes centros, apresenta, por isso mesmo, grande interesse sociológico. As suas gentes formam na realidade uma comunidade autêntica. Ainda hoje sáo raras as portas que se encontram fechadas, sendo muitas delas desprovidas de fechaduras. Outras portas usavam - e ainda se vêem algumas - as curiosas fechaduras com chaves de madeira.

Os habitantes do Corvo alimentam-se não só de produtos agrícolas, que sao excelentes, mas ainda de peixesaboroso que destemidos pescadores trazem das aguas Iímpidas mas revoltas do Oceano que os rodeia.

No ponto mais elevado da ilha, o Monte Grosso (770 m), pode admirar-se o Caldelrão, imensa cratera de um vulcão extinto há milénios, com um perímetro de cerca de 3 400 m e 300 m de profundidade. No fundo da cratera, existe uma pequena lagoa donde imergem algumas ilhotas, numa das quais nidificam os já tão raros garajaus rosados.De grande beleza paisagística, as suas terras divididas por intermináveis sebes de hortênsias de um azul radioso, precipitam-se em queda abrupta num mar de azul profundo.

A Ilha do Corvo é um local de eleição para os que desejam afastar-se deste mundo inquietante em quevivemos e gozar a paz que só através da contemplação se consegue alcançar.